Porque TODOS precisam falar sobre saúde mental, inclusive Startup!!

Desde 2015, no Brasil, setembro é considerado “o mês”  para se tratar sobre saúde mental, entretanto, é um assunto que merece cuidado e atenção diariamente. Comumente negligenciada, a saúde mental sempre esteve atrelada ao estigma do preconceito e da desinformação e campanhas como o ‘Setembro amarelo’ “fortalecem as discussões acerca do tema e evidencia assuntos considerados tabus para a sociedade. Eu acredito que a informação é a melhor forma contra contra a ignorância”, destaca Wellington Fernandes, Psicólogo e especialista em Recursos Humanos há mais de 12 anos.

Para a psicóloga e mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Natalia Ortiz “mesmo em tempos de maior acesso às informações deste campo, pode haver ainda muito desconhecimento sobre a importância do sofrimento psíquico e de suas consequências a longo prazo na vida de um sujeito e de uma sociedade”. 

A preocupação excessiva em buscar uma performance produtiva, seja no trabalho, no meio acadêmico, entre outros, tende a intensificar a problemática da saúde mental “em alguma medida, isso se deve ao fato de que as fragilidades, medos, limites e o próprio sofrimento batem de frente com o produtivismo naturalizado e idealizado no qual está ancorada nossa organização social. Cada um desses aspectos da vida acaba sendo desqualificado e avaliado como fracasso. A competitividade, por vezes festejada como um diferencial contemporâneo de sucesso, acaba favorecendo o silêncio tanto sobre a saúde quanto sobre a doença mental, retroalimentando um circuito de negacionismo, preconceito e mais sofrimento”, ressalta Sônia Mansano, psicóloga e doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC).

A competitividade, por vezes festejada como um diferencial contemporâneo de sucesso, acaba favorecendo o silêncio tanto sobre a saúde quanto sobre a doença mental, ressalta Sônia Mansano

A ampliação do debate sobre o tema tem levado muitas organizações a repensarem sua forma de trabalho e, com as startups, isso não é diferente.  Atuando na linha da psicologia comportamental, Fernandes destaca: “O que uma startup pode se atentar é justamente na rotina e no olhar para as pessoas. A empresa pode trabalhar com ferramentas de mapeamento mais profundo, tentar entender quais são os aspectos da organização que incomoda o trabalhador, compreender se essa pessoa está sendo ouvida, se ela se sente inserida nesse espaço, se a rotina de trabalho gerado não está sobrecarregando […] a empresa precisa, de fato, olhar para o ser humano não só como parte de um mecanismo de entrega de resultados mas como um ser complexo, caótico e maravilhoso como ele é”.

Estamos esgotados?

No livro “A sociedade do cansaço”, o autor Byung-Chul Han alerta para a época de velocidade e esgotamento em que estamos inseridos. Na obra,  o autor demonstra o quanto a sociedade valoriza indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas, além dos seus efeitos sobre o corpo e a saúde mental.

A Síndrome de Burnout ou esgotamento profissional vem crescendo como um problema a ser enfrentado pelas empresas. De acordo com um estudo realizado em 2019, cerca de 20 mil brasileiros pediram afastamento médico no ano por doenças mentais relacionadas ao trabalho. 

Para Fernandes, o Burnout conhecido como síndrome do esgotamento está associado “como a gente se relaciona com o trabalho e como o trabalho também se relaciona com a gente.  Geralmente, a pessoa parece acordar sem ânimo, sem empolgação, parece não conseguir se concentrar, o relato dos seus sentimentos são negativos, de desamparo, de querer ficar em casa e, normalmente, tem relação com a rotina de trabalho estressante, com uma liderança que não suporta, que não escuta e que não entende o ser humano como um ser humano; espera como se ele fosse uma máquina, entregando resultados e processos a todo momento e isso traz um prejuízo muito grande”, pontua.

Em tempos de pandemia, os casos tendem a se agravar, já que situações mais coletivas, como as medidas de distanciamento social, home-office, questões do cotidiano, entre outros, podem aumentar os índices de surtos, bem como agravar transtornos como a depressão e a ansiedade, como alerta Mansano: “o cotidiano de isolamento, distanciamento e temor em relação à contaminação por um vírus invisível intensificam o que, de certo modo, já estava instalado: a dificuldade de escutar e acolher os sinais que acusam o limite corporal e o sofrimento psíquico. A necessidade de aderir ao teletrabalho borrou as esferas da vida laboral e privada […] os dois exemplos deixam entrever os limites e reações do corpo diante dessas novas exigências e o quanto isso abriu espaço para manifestações de violência, depressão e sofrimentos diversos”.

Não existe um passo a passo de como cuidar da saúde mental, entretanto, algumas ações podem ser realizadas tendo em vista o autocuidado e a saúde cotidiana no trabalho e, sobretudo do trabalhador.  Fernandes assinala que a informação é a melhor resposta quando se discute trabalho e saúde mental. Para o psicólogo, “a empresa deve ter um ciclo de informações contínuas e não apenas em setembro, mas que atravessa o ano inteiro, como um grupo de discussões sobre comportamento, sentimentos, além de preparar as lideranças para esse processo. Criar um ecossistema onde as pessoas possam buscar informações de forma ativa, que ela tenha uma plataforma, ou um telefone que ela possa ligar ou seja, garantir um canal de suporte contínuo”.

Ortiz vai além e chama a atenção para que o indivíduo cuide dos laços e afetos presentes no cotidiano. Para a psicóloga “parar, olhar a qualidade de nossas relações afetivas, de amor, de trabalho, como nos posicionamos frente a elas e, consequentemente, de que forma sofremos com elas. Neste período de pandemia que atravessamos, me parece que cuidar da saúde mental é cuidar, justamente, dos laços que temos”, conclui.

Redação e Conteúdo: César H.S. Rezende

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