TRACE TALKS com Alexandre Nepomuceno

Desenvolver a ciência de um país é a chave para um crescimento econômico sustentado. Essa é a opinião do Chefe Geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno. Em entrevista ao Trace Talks, Nepomuceno destaca a importância da tecnologia para o Brasil, pontua qual o papel das startups nesse processo e convida, para uma parceria efetiva, o setor público e privado a investirem juntos.

Trace Talks: Como o agronegócio brasileiro e, sobretudo, a Embrapa têm se preparado para as questões ambientais?

Alexandre Nepomuceno: A sustentabilidade é a palavra da moda, mas a Embrapa trabalha com isso há 48 anos, ou seja, desde a sua criação. A Embrapa desenvolveu sistemas de produção que transformaram o Brasil na potência do agronegócio que é. Em 2021, o agro investiu 1 trilhão de reais na economia brasileira em valor bruto de produção. Então, a gente pode imaginar o que isso movimenta em termos de geração de emprego e renda. Tudo isso é feito com base em ciência, é uma agricultura com base em ciência e tecnologia. A Embrapa é o braço de ciência e tecnologia do Ministério da Agricultura.

Não adianta mais apenas falar em sustentabilidade, temos que mostrar. Por exemplo, o plantio direto, que é uma prática utilizada em 60% a 70% numa área brasileira de grãos, sequestra quase 3 toneladas de CO2 equivalente por hectare. Se você transformar isso, nos 40 milhões de hectares que serão plantados de soja e se você fizer uma previsão de que vamos usar o plantio direto nos próximos 20 anos, isso corresponde a 800 bi de litros de diesel que não serão consumidos porque foi usado plantio direto. 

Outra coisa, uma prática muito usada na produção de soja e agora em algumas gramíneas que é a fixação biológica de nitrogênio. Por exemplo, na soja não se usa fertilizante nitrogenado à base de petróleo. O fertilizante a base de petróleo emite óxido nitroso que é 300x mais poluentes que o C02. Então ao reduzir o uso desses gases, você reduz os gases do efeito estufa. Esses números foram coletados e publicados pelos pesquisadores da Embrapa. O órgão tem vários pesquisadores que trabalham nessa linha. O Brasil tem que pegar esses números e mostrar lá fora.

A Embrapa têm alguns eixos de atuação como a agricultura de baixo carbono. Aqui na Embrapa Soja têm o ‘Soja baixo carbono’ que vai gerar uma certificação para aqueles que utilizem as melhores práticas agrícolas. É importante dizer que essas práticas aumentam a produtividade e a sustentabilidade.

Embrapa e Trace Pack no lançamento da antena 5G em Londrina em 2021

Trace Talks: Qual o papel da tecnologia para a agricultura de baixo carbono?

Alexandre Nepomuceno: Tecnologia é ciência, é resultado científico. Há 70 anos atrás, não poderíamos fazer algo como a fixação de carbono que eu citei anteriormente. Então, essa questão serve para inúmeras ações. O uso de bioinsumos, da genética avançada, a edição gênica, que é uma tecnologia avançada, uma alternativa aos transgênicos. Os transgênicos permitiram o uso de plantio direto. Agora temos a edição gênica, que tem uma regulamentação que preserva a biossegurança mas que permite que mais empresas se desenvolvam com tecnologia. Tudo isso é tecnologia. Trazer o conhecimento científico para uma aplicação prática, ou para ajudar na tomada de decisão do produtor, como é o caso da transformação digital, ou para aumentar eficiência operacional como um todo.

Trace Talks: Qual o papel das startups como a Trace Pack nesse processo?

Alexandre Nepomuceno: As startups significam o ‘pensar fora da caixinha’, é inovação aberta. Quando falamos em inovação aberta, temos que estar cientes de que não conseguimos fazer tudo. Essas revoluções na área digital, na área cibernética, são muito amplas e ninguém consegue dominar tudo, então, trazer startups para trabalhar com o setor produtivo, com as grandes empresas, com o setor público por meio de parcerias-público-privadas, trazendo ideias que muitas vezes ficam dentro de bolhas e não são executadas. É estratégico para qualquer país do mundo e, estamos vendo muitas startups se tornando unicórnio, muitas empresas na área de transformação digital. Com essa legislação mais assertiva, do ponto de vista de biossegurança, está havendo um boom de startups na área de genética na Argentina e aqui no Brasil estão surgindo várias que estão trazendo ideias inovadoras e soluções para o agronegócio. Por exemplo, desenvolvendo plantas que são mais tolerantes à seca, mais eficientes na absorção de fósforo e potássio que o Brasil importa 90% do seu fósforo e potássio. É extremamente importante o setor privado e o setor público, fomentar essas cabeças brilhantes, formadas nas universidades, desenvolvendo as startups e venham trabalhar em conjunto para gerar tecnologias e desenvolver empresas nacionais, gerando emprego e qualidade de vida.

Trace Talks: Você destacou que essas tecnologias são necessárias para o desenvolvimento econômico e que isso deve ser incentivado nas universidades. Recentemente, o país sofreu cortes no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Como você vê essa questão?

Alexandre Nepomuceno: Infelizmente, antes mesmo desses cortes, o Brasil investia em torno de 1% em ciência e tecnologia. Países como a Coréia do Sul, Alemanha e França investem acima de 2%. Se olharmos no detalhe, entre o setor público e o setor privado, são maiores ainda no setor privado e é isso que está faltando no Brasil. Reitero que esses cortes são absurdos e nós temos que recuperar, porque têm coisas que apenas o setor público faz. Entretanto, se olharmos o desenvolvimento de países desenvolvidos, as grandes tecnologias surgem do setor público-privado. O setor público faz a parte inicial e o privado e complementa. Ou, com uma visão de futuro, com esse setor jovem que busca tecnologias em parceria com o setor público, como é o caso da Embrapa. A visão de investimento, de saber que têm um risco, têm que aumentar esse tipo de relação no país. Mais parcerias-público-privadas.

Mas de novo, a situação do CNPQ e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que são agências fomentadoras de inovação, é muito complicada e precisa ser revertida e ainda que seja, o setor privado, os produtores e empresários precisa botar mais a mão no bolso, do contrário, acaba vindo tecnologia de fora, como foi o caso da soja transgênica e os royalties vão embora e não ficam aqui com o produtor. 

Trace Talks: Você acredita que esse tipo de arranjo, ou seja, parcerias-público-privadas com o setor financeiro, produtivo e afins, para fomentar inovação e tecnologia seja possível no Brasil? Se sim, de que forma?

Alexandre Nepomuceno: O setor financeiro é apenas um dos stakeholders, têm muitos bancos que investem parte do seu lucro nisso. Mas, quando eu falo do setor privado, eu quero dizer os empresários brasileiros, o agronegócio com grandes empresas. O Brasil tem grandes empresas do agronegócio e, se você for ver, parcerias com o setor público, universidades, ainda é muito pequena. Essa mudança de mindset tem que ocorrer no Brasil e a gente espera que nos próximos anos, considerando a potência que o país é, tenhamos essa visão de médio e longo prazo.

Eu costumo brincar que, se na década de 1970, os pesquisadores chegassem no setor empresarial brasileiro e dissessem ‘queremos plantar soja no cerrado’,( não dava para plantar soja no cerrado naquela época e, se plantasse, não cresceria nada); eles me chamariam de louco. Foi através da ciência e da tecnologia que adaptamos a soja para crescer perto do Equador. Hoje, ela consegue crescer e produzir bem.

Essa visão da academia, precisa estar junto da visão do empresariado e, em conjunto, tomar as decisões. De uma maneira geral, se deixarmos apenas para os cientistas, eles vão querer plantar soja na Lua; se ficar só com os empresários, eles vão querer resolver o problema de amanhã. Temos empresários visionários no Brasil e cientistas com visão de futuro, como os da Embrapa, por exemplo. Gerar startups, know-how e desenvolver isso e levar adiante. Têm cérebro, têm competência e capacidade para fazer, mas precisamos ter organização. Falta quebrar paradigmas, principalmente no agronegócio que tem essa importância. 

Redação e Conteúdo: César H.S Rezende

Arte: Luana Jardim

About Cesar Rezende

Sou um TracePacker - Jornalista, mestre em Administração com ênfase em Política e Gestão Socioambiental pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e cursando MBA em Gestão Tributária pela USP/Esalq.

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